Londrina

Confira relatos das mulheres que conversaram com o Portal Bonde

13 fev 2019 às 19:04

Quatro mulheres conversaram com a reportagem durante as últimas semanas. Duas delas relataram abusos sofridos em 2011 e outras em 2014 e 2015. Três dessas mulheres não moram mais em Londrina. Até quarta-feira (13), a advogada de acusação informou à reportagem que conseguiu mapear 12 mulheres, que relataram terem sofrido abusos do mesmo réu.

Uma delas enfatizou que mesmo depois de oito anos ainda é muito doloroso falar sobre isso. "Eu e minha família nunca havíamos conversado sobre o crime. Vivíamos em silêncio até eu ler a reportagem na internet. Quem me mandou o link da matéria foi uma amiga que estava comigo no dia que aconteceu tudo em uma boate. Depois daquele dia, eu também não conversei mais com ela. Conversamos somente recentemente. Eu nunca tinha tido coragem de perguntar pra ela como fui embora de lá. Eu achei que esse dia nunca ia chegar. Tantos anos se passaram e eu não quero mais esconder. Eu achei que podia esconder isso de mim mesma. Mas me calar só me tornou mais invisível e impotente. Eu jamais achei que tudo isso ia acontecer. Porque até a violência faz com que a vítima se sinta culpada. Isso dói muito. É cruel", desabafa.


"Há oito anos eu fui numa boate em Londrina com uma amiga. A gente chegou lá e ficamos perto do bar. E ele [Tadeu] chegou com um amigo e os dois se aproximaram da gente. Eu fazia faculdade fora, então não o conhecia. Mas minha amiga disse que o conhecia de vista. Eles se aproximaram, trocamos meia dúzia de palavras e eu pedi uma bebida. Depois que a bebida chegou eu não me lembro de mais nada. Nem o nome dele eu sabia. A única coisa que eu sei é que a hora que acordei eu estava em uma casa quase sem móveis e senti o peso de alguém em cima de mim, mas eu não conseguia me mexer. Foi uma situação muito desesperadora pra mim. Quando eu abri os olhos, eu o vi, mas nem lembrava o nome. Tinha um relógio antigo na parede. A cama estava sem lençol e eu estava sem roupa. Meu celular estava tocando e tinha várias ligações. Minha roupa estava toda rasgada e eu implorei para ele me ajudar. Ele me deixou na porta de casa, mas quando eu entrei em casa, eu não era mais a mesma", confessa.


"Isso já eram umas 11h. Minha família estava desesperada. Foram atrás de mim no IML e em todos os hospitais da cidade. Foi desesperador, eu achava que era culpada. Ficava pensando o que eu poderia ter feito e aquilo tudo me dava muito medo e vergonha. A amiga que estava comigo conseguiu o número dele e meus pais ligaram para ele, inclusive. E ele falou de uma maneira como se eu quisesse estar ali. Aquilo acabou comigo. Ele me matou naquele dia. E como a gente vive numa sociedade que protege o agressor, eu tive muito medo. Eu namorava na época e meu namorado não estava em Londrina. Mas não tinha problema nenhum eu ter saído com a minha amiga. E não houve paquera, não houve nada. Eu nem sabia o nome dele", declara.


Depois de tudo isso, ela relatou que voltou para a cidade que fazia faculdade e foi tentando sobreviver. "E não vou mentir. Todos os dias pela manhã eu me lembro do que aconteceu. É muito difícil conviver com tudo isso. Eu ainda tenho muito medo. Mas quando li a reportagem, fiquei chocada. Mas, ao mesmo tempo, fiquei admirada da força da mulher que denunciou. Isso me deu coragem de denunciar também e tomar providências legais. Eu queria muito ter feito isso naquela época, mas ele e a sociedade me fizeram acreditar que eu era culpada. E essa é a pior violência", argumenta.


Hoje, a mulher esclarece que reconstruiu sua vida, tem um filho e trabalha. "E mesmo com tudo isso que aconteceu eu fui fazendo as pazes comigo e com meu corpo. Depois disso, eu sofri um acidente de carro e fiquei acamada. Fiquei meses e meses sem andar e eu fui voltando a amar cada pedacinho de mim. Quando eu voltei a andar, não foram só os primeiros passos após o acidente, foram os primeiros passos da minha vida. Recebi muito carinho e amor. Quando tive meu filho também. Eu vi meu corpo dando a luz a um filho e uma esperança renascendo em mim. E agora que eu sou mãe não acho que minha história seja uma vergonha. Eu não quero mais esconder ela", admite.


Mais uma mulher contou à reportagem sobre o que aconteceu com ela em 2011. Este caso chegou a ser julgado, mas o réu foi inocentado. A mulher lembra que aceitou uma carona dele. "Eu estava em uma boate e ele me abordou e mentiu seu nome a princípio. Disse que se chamava Danilo. Neste dia eu estava com alguns amigos meus e depois de um tempo eles foram ao fumódromo e eu fiquei sozinha no camarote. Começamos a conversar e ele disse que a festa estava chata. E eu disse que estava cansada e estava querendo ir embora. Nesse momento ele me ofereceu uma carona. E como nunca tinha acontecido nada nessas caronas eu acabei aceitando, não vi nada demais e avisei meus amigos", resume.


"Quando chegamos lá fora ele me disse que estava de táxi, aí eu disse que não iria mais. Mas ele disse que morava muito perto e que pegaria o carro em casa para me levar. Depois ele disse que não estava com a chave do carro, mas que subiria pegar e depois me levaria em casa. Em seguida, pediu para eu subir com ele, dizendo que era muito perigoso ficar lá fora sozinha e eu acabei subindo. Assim que ele abriu a porta do apartamento, me empurrou para dentro e eu caí. Ele começou a gritar comigo, eu pedia para ir embora o tempo todo e ele me batia, me xingava e me mordia. Eu gritava pedindo socorro e ninguém me escutava. Foram horas de horror", declara.


A jovem ressaltou que não estava bêbada. "Eu nunca bebi. Estava sã. Infelizmente, me lembro bem de muita coisa que aconteceu. E mesmo se eu tivesse bebido, isso não deveria ter acontecido. Eu me lembro que estava sem dinheiro e não tinha cartão de crédito na época. Nunca fui de beber, nem nada. Meus amigos que me levaram com eles. Depois de muito tempo ele me levou embora e me deixou na casa de uma amiga. E a todo momento me xingava e dizia que não era para eu falar para ninguém. Foi uma noite muito difícil, mas eu espero que depois de anos a justiça realmente seja feita. Eu lamento muito, pois sei realmente o que as demais vítimas estão sentindo", frisa.


Uma jovem que também contou sua história à reportagem, afirma que teve um relacionamento totalmente abusivo com ele há quatro anos. "Ele me drogava sem eu saber para tirar proveito da situação para fazer tudo em benefício dele. Várias vezes houve sexo sem consentimento. Ele já me contou que descia com as meninas na garagem do prédio dele porque não pegava sinal de celular. Que assim ele poderia ter relações com elas sem que ninguém ligasse. E depois, saía pelo térreo novamente e se desfazia delas", lamenta.


"Uma pessoa que tem prazer em saber que uma pessoa já foi abusada e sentir desejo por isso, é doentia e não merece conviver em sociedade. É uma pessoa que te suga e que te faz perder a confiança em você mesma e que se você não faz o que ele diz, você vai ficar sozinha. Quando vi a matéria na internet eu fiquei feliz por isso ter acontecido, mas achei que ele pagaria fiança e sairia no dia seguinte. Quando vi que fazia alguns dias que ele estava preso, tive esperança e resolvi entrar em contato com a advogada da outra vítima para relatar minha história. Eu fui ameaçada por ele com fotos íntimas, que ele dizia que eu se eu contasse algo pra alguém, ele as revelaria. Isso fez eu me calar. Mas, graças a Deus que eu posso estar contando essa história hoje", ressalta.


"Eu espero que mais pessoas que sofreram abuso tenham coragem de procurar a Justiça para que ele pague por tudo que fez. Eu estou bem hoje porque eu realmente tive o meu momento com Deus. Fiz tratamento psicológico também para conseguir recuperar minha autoestima, porque ele me jogava no chão e me fazia sentir um lixo. Foi um livramento ele sair da minha vida, antes que eu não pudesse estar mais aqui pra contá-la", pontua.


Na terça-feira (12), outra jovem relatou abusos sofridos em 2014. Ela conta que tinha 18 anos quando aconteceu. "Eu trabalhava em uma loja no shopping e um dia a minha gerente marcou um encontro com um cara em um pub. Esse cara era amigo do Tadeu. Ele [Tadeu] chegou junto com o cara e deve ter pensado que por minha gerente estar com o amigo dele, poderia ficar comigo. Eu tinha 18 anos e não estava afim. Ele estava bebendo pra caramba e cheirando cocaína. Ficava oferecendo e eu dizendo que não queria nada. Depois disso saí pra fumar e ele havia sumido. Em seguida, avisei a gerente que iria embora. Ela perguntou como eu iria e eu disse que pegaria um táxi na frente do pub ou ali perto onde havia um ponto. Quando saí, não tinha nenhum táxi em frente, mas continuei andando em direção ao ponto", recorda.


"Eu estava andando do lado da mão que desce a rua. E atrás de mim tinha um cara que nunca vi na vida andando a pé. E também tinha uma caminhoneta vindo na mão que sobe. A hora que a caminhoneta chegou na minha altura, ela veio pela contramão e o cara que estava atrás de mim me jogou pra dentro do carro. O cara que estava dentro da caminhoneta era o Tadeu e ele começou a me bater um monte na barriga. E eu perguntei porquê estava fazendo aquilo. Ele respondeu: 'você não é a machona? Vou te ensinar a ser mulher agora' e continuou a me bater", acusa.


Segundo a jovem, quando chegaram no prédio em que ele morava, ele a puxou pelo colarinho e a levou para dentro. "Não sei como o porteiro não falou nada. A gente subiu e era tudo muito sujo. No outro dia contei para minha gerente o que tinha acontecido e mostrei minha barriga machucada. Ela disse que ninguém acreditaria em mim e que eu estava de vestido curto e vermelho andando na rua de madrugada. Depois disso nunca mais contei para ninguém e fiquei pensando se eu deveria ter feito algo para aquilo ter acontecido comigo", reforça.

Além do que houve na época, a jovem afirmou que foi ameaçada pelo fisioterapeuta durante dois anos. "Ele me ligava, dizia que me via nos lugares e descrevia minhas roupas. Passou um tempo e eu mudei para São Paulo. Mas no meio do ano passado fui a Londrina visitar meus pais e à noite fui a uma balada e vi ele lá. Me senti péssima e agora eu quero falar. Ele fez isso com muita gente e não posso deixar que continue acontecendo."


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