Dicas

Artefatos de Junco: quando a tradição vira marca

31 dez 1969 às 21:33

Mais de 80 anos depois de começar a ser cultivado por imigrantes japoneses no Vale do Ribeira, no sul do Estado de São Paulo, o junco não é mais apenas uma espécie de gramínea plantada em áreas alagadiças. Agora Junco é também a marca que reúne os produtos de seis empresários dekasseguis que, no último ano apostaram na diversificação de produtos, na valorização do design.

A logomarca Junco foi registrada em março e será usada como ferramenta para a conquista do mercado de decoração, presentes e moda. Para isso, dos tradicionais tatamis, esteiras e chinelos, manufaturados da mesma forma há décadas, esses empresários remanescentes passaram a confeccionar bolsas, sandálias, pastas, mochilas, almofadas, pufes, tapetes, cestos e jogos americanos para refeições, produtos desenvolvidos com apoio da designer Fabíola Bergamo especialmente para essa nova etapa.


Um desses inovadores da tradição é Hélio Hideshi Tamada, empresário à frente da Naboro Tamada, negócio criado por seu avô há mais de 50 anos. "Com as seis fábricas unidas, ficamos mais fortes. Podemos dividir grandes encomendas e, agora dar um novo fôlego a este negócio que foi do meu avô e de meu pai. Com a logomarca, os novos produtos e o incentivo do Sebrae podemos ser conhecidos no mundo todo".


As mudanças, recorda Tamada, começaram em 2006, quando a Associação Comercial de Registro percebeu que os menos de 10 produtores de junco, remanescentes de uma cultura que chegou a ser compartilhada por mais de 80 famílias há algumas décadas, não trabalhavam em conjunto e se viam como concorrentes. Após se reunirem num núcleo do Empreender, o Escritório Regional do Sebrae-SP no Vale do Ribeira iniciou junto ao grupo um trabalho de inovação tecnológica, com ênfase em design de novos produtos desenvolvidos por uma empresa especializada.


Daí foram criadas as almofadas, pufes, bolsas, mochilas e cestos, num total de 40 novos produtos, lembra a analista do Sebrae-SP Karem Portaluppi Duarte: "Por mais de 30 anos tatames, esteiras e chinelinhos foram feitos exatamente do mesmo jeito, sem nenhuma inovação tecnológica, deixando de ser esteticamente atrativo e perdendo o valor de mercado. Agora essa realidade mudou".


Dessa primeira etapa, o trabalho resultou numa exposição realizada em junho de 2007 em Registro, com o lançamento de um catálogo dos produtos. Douglas Massayuki Naoi, da DAI Artefatos de Junco, conta que tanto o catálogo quanto agora a logomarca fazem parte de uma estratégia de reforçar no consumidor a identificação dos produtos dos descendentes de japoneses do Vale do Ribeira. "Podemos ainda os seis empresários realizar promoções comerciais em conjunto, assumir grandes encomendas, criar um site único para explorarmos também o e-commerce, além de uma representação comercial em São Paulo. Os novos produtos foram bem aceitos pelo mercado e já estamos em contato com grandes empresas que têm o costume de distribuir brindes para fecharmos grandes vendas".


História


A produção do junco no Vale do Ribeira começa em 1933, com a chegada de Shigeru Yoshimura a Registro com uma muda de junco escondida na bagagem. Ele vinha de Fu Kuoka, ao sul do Japão, terra de verões quentes e úmidos cuja principal atividade era a produção de junco, matéria-prima do tradicional tatami japonês. O clima de verões quentes e úmidos Yoshimura reencontrou no litoral sul de São Paulo e o Vale do Ribeira se tornou o único produtor de junco das Américas, com produção de 50 toneladas da fibra seca por ano. Foi nessa nova terra que Shigeru Yoshimura plantou o junco cuidou dele por três anos. Três anos depois, quando a planta começou a brotar, ele distribuiu novas mudas aos colonos da região, para a multiplicação do trabalho.


Yoshimura produziu junco até sua morte, aos 82 anos de idade, em cima de um tatami, como diz uma velha canção japonesa que os imigrantes trouxeram da terra natal: "Se tu és realmente japonês, que teu último suspiro seja em cima de um tatami".

De uma muda clandestina às inovações do design, é a nova geração de produtores, como Douglas Massayuki Naoi e Hélio Hideshi Tameda, filho e neto de imigrantes japoneses, que renovam a tradição do junco no Vale do Ribeira, mas com profissionalismo, visão de negócio, cooperação e inovação em produtos.


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