Em meio às comemorações do aniversário de meio século da conquista da 1ª Copa do Mundo, a Seleção Brasileira tem muito pouco a celebrar. Se na época da conquista o inesquecível Nelson Rodrigues decretou o fim daquilo que ele chamava de complexo de vira-lata do futebol nacional, a "Era Dunga" ressuscitou, talvez de maneira ainda mais profunda, esta mania de inferioridade.
Este fenômeno regressivo não é novo, e teve seus primeiros sinais bem visíveis já no início do período histórico que leva o nome do atual treinador. A "Era Dunga" começou com a equipe comandada por Sebastião Lazaroni em 1990, que tinha no limitado meio-campista o seu símbolo maior. E foi marcada por um time retranqueiro, adotando um 3-5-2 em que os três zagueiros não eram mais do que isso, sem a presença de um líbero capaz de progredir ao ataque. Algo bem parecido com a maioria das formações com três zagueiros hoje comuns no futebol brasileiro. O resultado foi a pior seleção nacional que já disputou uma Copa do Mundo.
O segundo capítulo desta saga veio com o título mundial em 1994, decidido pela presença de Romário, bem coadjuvado por Bebeto. Conquista de um time que não encantou ninguém, e que teve seu nome marcado na história como primeiro vencedor de Copa que não marcou nenhum gol na final. E que passou a ser o exemplo mais bem acabado do futebol de resultados defendido por aqueles que valorizam mais as vitórias do que a forma com que elas são conquistadas. O que levou a uma mera repetição de táticas em 1998, com um fracasso retumbante diante da Seleção Francesa, que valorizava o espetáculo e tinha um craque que jogava um futebol digno das décadas anteriores chamado Zidane. E depois de um período de ostracismo nos tempos de Felipão, que se montou um time longe de ser encantador, fez muito mais pelo futebol-arte que a dupla Parreira-Zagallo, o futebol feio e teoricamente mais eficiente voltou a ser a tônica dominante na Seleção Brasileira que foi para a Copa de 2006. Equipe comparável, no que há de pior, apenas ao time de Lazaroni, e que novamente sucumbiu à França, envelhecida e sem o mesmo encanto de oito anos antes.
A campanha deprimente na Alemanha parecia ser o fundo do poço e Dunga foi chamado para levar adiante o modelo adotado na era que leva seu nome. Veio para motivar um bando de jogadores que se arrastava em campo, numa escolha que nada teve a ver com a eventual competência do treinador, algo que nunca havia sido - e provavelmente jamais será.
Mas Dunga consegue fazer ainda pior que alguns de seus antecessores, principalmente ao engatar a marcha-à-ré na história do futebol brasileiro, normalmente declarado o melhor do mundo. Sob o comando do atual treinador, a Seleção Brasileira consolidou um fenômeno recente, que é a falta de identificação com o torcedor. Jogando sempre fora do Brasil, com táticas mal copiadas do futebol europeu, a equipe não apenas deixou de encantar, mas passou a aborrecer aqueles que ainda perdem tempo assistindo a seus jogos. E com a desculpa esfarrapada de que não "há mais bobo no futebol", sofre para vencer o Canadá, perde para a Venezuela e Paraguai e não passa de um empate com a Argentina, mesmo jogando em casa.
Atuações e explicações que mostram que para Dunga e seus comandados, as outras seleções são muito melhores e que voltamos a ser um país de vira-latas. Felizmente, parece que o fim desta era nefasta está cada vez mais próximo, não devendo passar de setembro, com o término das Olimpíadas.
Pit Bulls
Enquanto o Brasil se arrasta em campo, recheado de volantes, na Europa a Rússia segue a risca os preceitos de seu técnico holandês Guus Hiddink e atropela a própria Holanda, com um futebol de encher os olhos. E resgata o orgulho de um país, ferido com o fim da União Soviética. Como a Laranja Mecânica emperrou, seria uma dádiva para o futebol que os russos chegassem ao título, provando que o futebol ofensivo e bonito de se ver pode ser bem sucedido também. Curiosamente, a Rússia fará sua semifinal com a também impulsiva Espanha, garantindo ao menos uma equipe com jogo agradável na final da Eurocopa.
Já a outra decisão coloca frente-à-frente a eficiência de Alemanha, que tem o mérito de trabalhar muito bem a bola e chegar pelas pontas, com a incansável Turquia, que joga feio, mas com uma entrega pouco vista nas demais seleções. Mas esta força de vontade dificilmente será suficiente para garantir um lugar na final porque, com dez desfalques, os turcos terão apenas dois jogadores no banco de reservas, sendo apenas um jogador de linha. O que pode levar o goleiro Zengin a ser improvisado na defesa ou no ataque ao longo do jogo.
Fim do sonho
Se a seleção de Dunga vai mal nas Eliminatórias (hoje disputaria a repescagem), muitas outras seleções deram adeus à Copa da África do Sul, em 2010. No continente africano, que ainda não definiu os 20 países que seguirão na disputa na próxima fase - apenas a Nigéria já está matematicamente garantida -, Tanzânia, Maurício, Níger, Lesoto, Mauritânia, Seicheles e Dijbuti já não têm mais chances. Na Ásia, as quatro vagas (e mais um lugar na repescagem) serão disputadas pelas duas Coréias, Japão, Austrália, Arábia Saudita, Catar, Bahrein, Uzbequistão, Irã e Emirados Árabes Unidos. E na Concacaf, as 12 seleções que seguem na briga são Estados Unidos, México, Cuba, Guatemala, Trinidad e Tobago, Honduras, Canadá, Costa Rica, Suriname, El Salvador, Haiti e a Jamaica de René Simões. E na Oceania, o lugar na repescagem será de Nova Zelândia ou Nova Caledônia.
Nota 10
Para a Rússia de Guus Hiddink, que bateu a Holanda (até então sensação da Euro), com grande classe. Pode até não ser campeã, mas mostra que o futebol bem jogado ainda tem espaço.
Nota 0
Para Dunga e sua equipe cada vez mais medíocre. Já passou da hora de mudar.