Bala na área

Até pode dar certo

31 dez 1969 às 21:33

Pela primeira vez desde que assumiu o comando da Seleção Brasileira, o técnico Dunga acertou a mão ao convocar os 18 atletas que defenderão o país nas Olimpíadas de Pequim, no mês que vem. Após algumas invencionices nas raras convocações desta equipe sob-23 anteriores, desta vez o treinador, talvez por já sentir que seu cargo está por um fio, soube escolher alguns dos melhores atletas das últimas safras e montou um time forte, ao menos na teoria.

A começar pelos bons goleiros Renan e Diego Alves, passando por um trio de zagueiros de impor respeito, com Thiago Silva e Breno em nível um pouco superior ao de Alex Silva (que quase brigou dentro de campo com seu companheiro de São Paulo Zé Luís, na última rodada do Brasileirão, mostrando certo descontrole). Nas laterais, Rafinha é melhor inclusive do que Maicon e Daniel Alves, os eleitos para o selecionado principal, e Ilsinho, esquecido no futebol ucraniano não ficava muito atrás em seus tempos de São Paulo. Do outro lado, Marcelo não é tão bom assim, mas de qualquer forma joga mais do que o decadente Gilberto, o preferido de Dunga nas Eliminatórias.


No meio-campo, curiosamente o ex-volante brucutu chamou para sua antiga posição três atletas que sabem tratar a bola: Lucas, Anderson e Hernanes. Trio de muito talento e futuro, que talvez viva momento melhor do que os três armadores que irão à China. Diego, apesar da inegável qualidade, ainda sofre com a irregularidade de suas atuações. Mesmo problema que atinge Thiago Neves, que no entanto vem de partida brilhante na final da Libertadores - quando marcou três gols -, mas que acabou apagada pelo erro na decisão por pênaltis. A Seleção Olímpica pode ser a chance de redenção para o meia, que ainda não pode ser chamado de craque. Algo que Ronaldinho Gaúcho, convocado por imposição de Ricardo Teixeira, é, de maneira indiscutível. O problema é que, levando-se em conta seus últimos atos, especialmente fora de campo, Ronaldinho parece mais comum ex-jogador de futebol do que com um atleta profissional. No que segue os passos do outro Ronaldo, inclusive pelo fato de estar visivelmente bem acima do peso ideal. Mas, depois do estrago que o gordinho Cabañas fez com Flamengo e Santos, tudo é possível.


Fechando a equipe, o ataque tem uma dupla de ouro, formada por Pato e Robinho, e outra que não passa do bronze, composta por Jô e Rafael Sobis. E um grande problema, que é o pouco tempo para a preparação, que mostrará ao teimoso treinador quão caro custou abrir mão de testar o time olímpico em alguns dos amistosos caça-níqueis dos últimos meses. E caberá aos jogadores compensar a exigüidade dos treinos, já que seu comandante nunca demonstrou grandes conhecimentos para exercer sua atual função. Até por ter sido escolhido para o cargo para tentar resolver a falta de empenho dos atletas na última Copa do Mundo, e não por algum trabalho anterior como treinador, que nunca existiu.


Se o ouro não vier, muito provavelmente estará encerrada a "Era Dunga" na Seleção, o que não seria fato para se lamentar. Se ele vier, encerrando uma espécie de obsessão, não deve ser mais comemorado do que nenhum outra medalha brasileira em Pequim. Até porque o futebol é, de todos o esporte, o que menos merece ser chamado de olímpico. Ao menos o brasileiro, especialmente após a demonstração de falta de espírito olímpico demonstrada pela equipe comandada por Luxemburgo que conquistou o bronze em 1996, e sequer permaneceu até o final da competição, para receber a premiação no pódio olímpico, lugar consagrado aos mais valorosos atletas, algo que a CBF e Ricardo Teixeira certamente desconhecem existir.


Espírito Olímpico


Ao contrário dos futebolistas brasileiros, Rafael Nadal e Roger Federer derma no último domingo, na grama de Wimbledon, um exemplo de esportividade, talento e fidalguia. Após cinco horas (descontando-se o tempo das paralisações pela chuva) de uma batalha cheia de reviravoltas e jogadas fantásticas, o espanhol quebrou uma hegemonia do suíço, que buscava seu sexto título consecutivo. E logo após vencer não poupou elogios ao adversário e amigo, voltando a chamá-lo de melhor tenista de todos os tempos - opinião compartilhada por muitos especialistas. Federer, mesmo derrotado, também soube reconhecer os méritos de Nadal, que evoluiu muito seu jogo na grama, já que é praticamente imbatível no saibro. Um cavalheirismo incomum que veio logo após uma verdadeira luta de gladiadores, que no entanto não perdem a elegância.


Espírito de pato


Lewis Hamilton, Nick Heidfeld e Rubens Barrichello. A trinca que compôs o pódio do GP da Inglaterra, debaixo de uma chuva intermitente típica da Grã-Bretanha, provou que é preciso mais do que ousadia para se dar bem em condições climáticas adversas e virou um jogo que lhes era desfavorável. O inglês deixou para trás as críticas, após cometer alguns erros bobos, e fez uma corrida de gente grande. Curioso é que o narrador Galvão Bueno, que repete à exaustão que o garoto não sabe administrar a pressão desta vez nada falou sobre o tema, talvez por ver sua opinião ser contestada de forma tão definitiva nas curvas de Silverstone.


O alemão, que vem tomando um banho do polonês Kubica, desta vez se saiu muito melhor que seu companheiro, fez uma linda ultrapassagem dupla sobre Raikkonen e Kovalainen, e ressurgiu para o mundo. E o brasileiro desta vez superou com talento e sensibilidade as deficiências de seu Honda. Experiente, Barrichello soube colocar no momento certo os pneus de chuva, aproveitando como ninguém para ser veloz no momento em que a pista apresentou as piores condições de aderência de toda a prova. Algo que Felipe Massa passou longe de fazer, com erros sucessivos que lhe levaram ao último lugar entre os que chegaram. Nelsinho Piquet foi bem melhor, mas faltou um pouco mais de cuidado na hora da chuva forte, o que lhe custou a conquista de mais alguns pontos no campeonato. Que chega a metade com Hamilton, Massa e Raikkonen dividindo a liderança com 48 pontos, somente dois a mais que Kubica. Um ano inesquecível para quem gosta de automobilismo.


Nota 10


Para a delegação brasileira em Pequim que será a maior na história, tanto em números absolutos quanto no total de mulheres competindo.


Nota 0

Para Felipe Massa pela corrida de principiante que fez na Inglaterra.


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