Guga parou. Não resistiu às dores, às seguidas cirurgias, ao cansaço acumulado de pouco mais de uma década de brilho entre os grandes nomes da história do tênis. E a despedida, encerrando uma turnê cuidadosamente planejada não poderia ser em local mais significativo: a quadra central do torneio de Roland Garros (que ao contrário do que transparece na TV, se pronuncia Garrô).
Foi nela que Guga surgiu para o mundo em 1997. Foi nela que venceu mais duas vezes um dos quatro torneios do Grand Slam, consagrando-se como o melhor jogador de saibro do mundo (título que depois ampliou para o melhor do mundo em qualquer tipo de superfície). E foi lá que fez sua última partida demonstrando a mesma variedade de golpes que o consagrou, especialmente a poderosa esquerda.
Tudo isso debaixo de aplausos entusiasmados de quase 15 pessoas e jogando contra um tenista da casa, o francês Paul Henri-Mathieu. Público que, apesar de ser prioritariamente formado por franceses, pouco deu importância à nacionalidade do brasileiro Guga, admirando com elegância um jogador fabuloso em qualquer nacionalidade ou língua.
E é exatamente nesta fidalguia que está o grande exemplo que nós, brasileiros, deveríamos seguir à risca. Fico imaginado o que aconteceria em uma situação oposta à do último domingo, em Paris. Caso fosse um francês a se aposentar no Brasil, diante de um brasileiro. Os aplausos e a admiração certamente seriam substituídos por vaias e inveja, lembrando o lamentável comportamento da torcida nacional em outros tantos eventos esportivos.
Como não lembra dos Jogos Pan-Americanos, quando o público - talvez contagiado pela monocultura futebolística, talvez por falta de educação simples e pura -, apupou continuamente os atletas de outros países, independentemente da modalidade. Arquibancadas que celebrava cada queda de um ginasta que não fosse brasileiro, cada tentativa frustrada de um estrangeiro superar alguma marca do atletismo. Ou mesmo do ódio nutrido contra dois gênios do automobilismo como Alain Prost e Michael Schumacher.
Comportamento lamentável que deveria ser motivo suficiente para que o Brasil fosse sumariamente eliminado de qualquer concorrência para receber um evento de grande porte, como os Jogos Olímpicos. Afinal, uma nação sem espírito esportivo não deve ser considerada apta para receber tais disputas. Resta torcer para que na Copa do Mundo de 2014 não se repitam os constantes vexames do Pan. Para isso muito contribuiria uma mudança da mentalidade dos narradores esportivos brasileiros, que nos bombardeiam diuturnamente com um ufanismo tacanho e sem sentido, tratando os concorrentes dos esportistas brasileiros como inimigos ferrenhos que nada merecem de positivo. Saber admirar os vencedores, independente de sua raça, credo ou nacionalidade é o primeiro ponto para um povo atingir o ideal olímpico defendido pelo velho Barão Pierre de Coubertin. Tomara que um dia eles cheguem a estas terras tupiniquins.
Dança das cadeiras
Outra mania nacional, além de odiar os adversários, é a praticada pela maioria dos dirigentes do futebol brasileiro: a roleta-russa de treinadores. Antes mesmo do Brasileirão começar, Joel Santana trocou o Flamengo pela África do Sul. Seu lugar logo foi preenchido por Caio Júnior, que estava com a cabeça a prêmio no Goiás. Quando a bola rolou, Ney Franco, que fazia bom trabalho à frente do limitado elenco do Atlético foi demitido depois de duas rodadas, mesmo sem perder nenhum jogo. Para seu lugar chegou o emergente Roberto Fernandes, que ainda tem muito a provar antes de entrar para o primeiro escalão de treinadores. E agora já se fala que Muricy Ramalho e Emerson Leão estão ameaçados de demissão no São Paulo e no Santos, respectivamente. E é fácil apostar que, até o final do campeonato, não mais do que cinco ou seis equipes tenham o mesmo técnico do início da competição - e que provavelmente serão elas que brigarão pelo título e pelas vagas na Libertadores.
Boca cheia
Ver a facilidade com que o Boca Juniors derruba seus adversários na Libertadores é algo fascinante. O time vinha mal no início da competição, passou a duras penas pela 1ª fase, mas depois deslanchou e é favorito na semifinal, diante do heróico Fluminense, que passou pelo São Paulo em um jogo que já entrou para a história do futebol brasileiro. Mas, diante de um Riquelme que - de forma semelhante apenas à de Zidane nos últimos anos - joga em um ritmo diferente da habitual correria do futebol moderno, com a falsa lentidão de um Ademir da Guia; de um talentoso Palácios; e de um artilheiro digno de um belo tango, como Palermo, o Tricolor dependerá de novas atuações de gala de toda a equipe para chegar à decisão da Libertadores.
Nota 10
Para Guga, que conquistou o mundo sem deixar de ser, em nenhum momento, ele mesmo. Simples, alegre e fabuloso.
Nota 0
Para a dança das cadeiras do futebol brasileiro, que em breve ira continuar com a abertura da janela internacional de transferências, que irá desfigurar diversas equipes.