Bala na área

Nada mais que a obrigação

31 dez 1969 às 21:33

Passadas as Olimpíadas, em que novamente o Brasil provou estar muito longe de ser a potência esportiva que os dirigentes tentam apregoar, e em meio aos excelentes resultados do país nas Paraolimpíadas - nestas sim o Brasil é bastante forte -, as atenções do esporte nacional voltaram-se quase que exclusivamente para o selecionado de Dunga na briga pela vaga para a próxima Copa do Mundo.

E como costuma acontecer nestas situações, bastou uma vitória relativamente tranqüila sobre o frágil Chile para que o "técnico" deixasse de ser uma besta para tornar-se bestial. Mas o time brasileiro que foi a campo ainda está a anos-luz de ser considerado forte o suficiente para não fazer feio na principal competição mundial. Garantir a vaga não é mais do que obrigação, até porque o classificatório sul-americano é de longe o mais fácil de todos, já que classifica diretamente quatro dos dez candidatos e ainda dá a chance de uma repescagem ao quinto colocado.


Foi por isso que as críticas andavam tão fortes contra Dunga, que viu sua equipe iniciar a última rodada ocupando a medíocre 5ª colocação. Mas a vitória em Santiago bastou para que a equipe ascendesse para a vice-liderança. E com chances de assumir a ponta com uma vitória sobre a Bolívia, que há algum tempo ganhou da Venezuela a condição de pior seleção do continente.


Mas este bom posicionamento, que abafou um pouco os questionamentos ao dublê de técnico, não deveria empolgar ninguém. Afinal, a vitória foi facilitada pela falta de pontaria chilena já que os donos da casa perderam ao menos uma oportunidade clara de sair na frente. Além disso a zaga adversária é uma peneira e comete erros graves de posicionamento - algo que os brasileiros também fazem, mas de forma mais moderada.


Outros problema sério são as opções equivocadas de Dunga, que manteve Gilberto Silva como titular (felizmente ele cumpre suspensão no jogo de amanhã) mesmo com o volante sendo reserva em seus clubes há pelo menos duas temporadas. Também injustificável foi a escalação de Kléber na lateral-esquerda exatamente o momento em que eu vive a pior fase em no mínimo cinco anos. Quando ele estava jogando bem, não era convocado, e quando está mal vira titular, mostrando a incoerência de um comando técnico que parece perdido.


O mesmo acontece com Ronaldinho, imposição de Ricardo Teixeira ao pobre Dunga, que vê o antigo craque se arrastar em campo. A habilidade do atleta segue inquestionável, mas a má forma do gaúcho é clara e lembra muito as condições da dupla Ronaldo-Adriano na Copa da Alemanha. Enquanto Kaká não retornar à equipe assim que estiver recuperado de lesão, este time que pouco apresenta de jogadas ensaiadas ou minimamente treinadas vai depender da ligação direta da defesa (com os bicos de Lúcio para frente) com o ataque. Deu certo contra o Chile porque Luís Fabiano fez muito bem o papel de pivô e devido à fragilidade defensiva, mas não funcionaria diante de uma seleção européia, por exemplo.


Por isso tudo, talvez uma derrota no Chile tivesse sido muito melhor porque resultaria na demissão sumária de Dunga, que por enquanto ainda não pode ser chamado de técnico de futebol.


Pelo mundo


Com o pontapé inicial das Eliminatórias Européias, agora o mundo inteiro já vive o clima da Copa de 2010. Que já tem a França como candidata à grande decepção, após perder por 3 a 1 para a Áustria em sua estréia. Itália, Espanha e Inglaterra venceram, mas ainda têm muito a evoluir. Amanhã tem mais uma rodada que começara a definir favoritos e apontar eventuais surpresas.


Na África, enquanto a Nigéria mais uma vez mostra sua força e segue invicta, a África do Sul - garantida na Copa do Mundo por ser o país sede mas que disputa o classificatório porque ele vale também para a Copa Africana de Nações -, comandada pelo "paizão" Joel Santana é a grande decepção e já está fora da luta por um lugar na competição continental.


Nas Américas Central e do Norte, Estados Unidos e México seguem tranqüilos e deixam para outras dez equipes a luta por quatro vagas no hexagonal final. Na Ásia, a fase semifinal teve apenas uma rodada, em que o favorito Japão e o surpreendente Catar saíram na frente no Grupo A, que amanhã terá a estréia da Austrália. No B, a líder é a Coréia do Norte, que amanhã encara a rival Coréia do Sul (que ainda não jogou nesta fase). As duas disputam com a Arábia Saudita duas das quatro vagas diretas à Copa. Um quinto país ainda disputará repescagem contra a melhor equipe da Oceania, quase que certamente a Nova Zelândia.


Nota 10


Para todos os brasileiros que ganharam medalhas em Pequim, tanto nas Olimpíadas quanto nas Paraolimpíadas. Em um país em que as políticas públicas de massificação esportiva são praticamente inexistentes, qualquer bom desempenho é um fato extraordinário e que depende apenas dos atletas e de seus treinadores.


Nota 0

Para todos os dirigentes que tentam "tirar uma casquinha" das medalhas conquistadas, a começar por Carlos Arthur Nuzman, capaz de verdadeiros malabarismos matemáticos para tentar dizer que a campanha em Pequim foi a melhor da história brasileira (o que não é verdade já que em Atenas foram conquistadas cinco medalhas de ouro, que garantiram o 16º lugar, contra três ouros e o 23º lugar na China).


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