Bala na área

Os ventos da mudança

31 dez 1969 às 21:33

Dois fatos sem nenhuma ligação marcaram o esporte nos últimos dias. Tendo como única coisa em comum o fato de encerrarem velhas escritas, a vitória espanhola na Eurocopa e a queda de Eurico Miranda no Vasco da Gama já tornam 2008 um ano histórico no mundo do futebol.

No primeiro caso, a Fúria acabou com um tabu de 44 anos sem grandes conquistas no futebol, apesar dos habituais lampejos em uma ou outra Copa do Mundo. Peso que o time de Fabregas, Fernando Torres, Xavi, Villa e Xabi soube suportar, deixando no folclore o fato de sempre fraquejar na decisão. A quebra do estigma de perdedora que a Seleção Espanhola carregava curiosamente foi quebrada em uma final contra aquele que é um dos mais acostumados (se não o mais acostumado) a decisões, o alemão. Que desta vez não teve força para segurar o ímpeto dos ibéricos, finalmente premiados por seu futebol bonito e ofensivo. Holanda e depois Rússia até apresentaram um futebol mais vistoso, mas é inegável que a vitória espanhola resgata a credibilidade do futebol bem jogado, que alguns idiotas da objetividade consideram pouco competitivo. Seria muito bom que este título decretasse o fim do futebol de resultados, que desde a vitória da Alemanha sobre a Hungria, em 1954, assola o mundo na Copa do Mundo.


Liberta quae sera tamen


Mas a maior conquista para o futebol sem dúvida alguma é o fim da "Era Eurico Miranda" no Vasco. Clube que tem tudo para resgatar seu passado progressista - que o levou a ser o primeiro clube a admitir negros em seu elenco - esquecido no período de trevas mantido a ferro e fogo pelo cartola-coronel.


Para ser ainda mais significativa, a vitória da oposição, conseguida após anulação do fraudulento pleito anterior na justiça, foi obtida por um símbolo vascaíno, o ex-atacante Roberto Dinamite. O maior artilheiro da história do clube tem pela frente o desafio de sanear uma dívida estimada em R$ 300 milhões, além de resgatar uma imagem manchada pelo autoritarismo de Miranda, símbolo maior da mediocridade (entre tantas outras qualificações desabonadoras) da cartilagem nacional.


Pena que por enquanto apenas ele tenha perdido seu reinado e que ainda existam por aí outros cartolas que lhe faziam ótima companhia, como o mais poderoso deles, um certo Ricardo Teixeira, infelizmente cada vez mais próximo do presidente Lula (que neste caso também rasga o seu passado democrático), entre tantos outros. Como o interminável João Havelange, que aproveita a comemoração dos 50 anos do primeiro título mundial brasileiro para ressurgir do merecido ostracismo, tentando tomar contas dos louros que são apenas daqueles craques inesquecíveis, da comissão técnica da época e de Paulo Machado de Carvalho, que foi quem organizou aquela seleção. Muito longe dos gabinetes refrigerados deste velho senhor que já mal fala português e não tem nenhuma identificação com o Brasil.


Mas estes não são os únicos cartolas que deveriam ser devidamente defenestrados do futebol brasileiro. Muitos outros, que tentam posar de modernos mas não passam de cópias - apenas um pouco mais sociáveis - do velho Euricão, andam por aí incólumes, esfregando as mãos com as po$$ibilidades que a Copa do Mundo de 2014 reserva para aqueles que mais bajularem o cartola-mor do futebol brasileiro. Resta torcer que a derrocada de Miranda seja definitiva e que em seu rastro muitos outros caiam. E não apenas do futebol, já que os métodos e a forma arrogante de "administrar" o esporte são comuns a outras modalidade e instituições, a começar pelo Comitê Olímpico Brasileiro de Carlos Nuzmann, que mais uma vez lançou a estapafúrdia candidatura carioca aos Jogos Olímpicos, mesmo após uma série de fracassos retumbantes em um simples Pan, quando os mesmos dirigentes não conseguiram sequer fazer funcionar um acanhado estádio de beisebol e softbol, acabaram como o Autódromo de Jacarepaguá em troca de arenas que viraram elefantes brancos, e não cumpriram as promessa de melhorar a infra-estrutura do município.


Nota 10
Para a Espanha, que voltou a garantir um lugar entre as grandes seleções. Para Roberto Dinamite, que resgatou o Vasco das mãos de seu maior vilão.


Nota 0

Para Eurico Miranda e seus iguais, que ainda persistem no esporte brasileiro.


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