De tão absurdas, as cenas lamentáveis protagonizadas pela polícia pernambucana no jogo entre Náutico e Botafogo, no estádio dos Aflitos (nome mais do que apropriado para acontecimentos dantescos como este) parecem até obra de ficção. Pena que não são. Mais do que isso, mostram bem a proximidade com o ponto de ruptura dos princípios básicos das leis e direitos em que vive a sociedade brasileira.
Tratar um atleta profissional como um criminoso - e nem mesmo um bandido merece as agressões covardes praticadas pelos homens fardados - é um ato inclassificável contra um cidadão, que merece severa punição.
Da mesma forma que devem ser punidos também o árbitro Wilson Seneme (que, entre outros erros, permitiu a participação não solicitada da PM), o zagueiro André Luís, o Náutico e a Federação Pernambucana de Futebol, todos com parte da responsabilidade pelos fatos lamentáveis, que tiveram início com um expulsão que, se não injusta, demonstra a falta de critério da arbitragem brasileira.
Isto porque o zagueiro botafoguense recebeu o segundo cartão amarelo - e como conseqüência o vermelho - após um carrinho nitidamente na bola. Mas o árbitro, talvez enganado pela cena do lateral Ruy, considerou o lance faltoso, algo que muitos de seus colegas de apito não considerariam. Mas este foi apenas o primeiro de uma série de erros cometidos pelos envolvidos na confusão.
O próximo a errar foi o zagueiro que, nitidamente descontrolado, dirigiu-se ao banco de reservas, onde não poderia ficar devido à exclusão do jogo. E no caminho para deixar o gramado, André Luís deu um ``bico´´ em uma garrafa d´água, que teria atingido um torcedor, além de fazer gestos obscenos para a torcida adversária. Atos que devem resultar em longa e merecida suspensão para o atleta.
A partir daí o espetáculo de horror foi protagonizado por uma aspirante a oficial da Polícia Militar local, chamada Lúcia Helena. Que, ao contrário de sua xará daquela propaganda de banco que mimava demais o cliente, agiu com prepotência, despreparo e violência ao tentar dar uma chave-de-braço no atleta, abusando de seu poder de policiamento. Mostrando total desconhecimento das leis, algo que não condiz com seu posto, e sem ter sua participação solicitada pela arbitragem do jogo, Lúcia Helena alegou que cumpria o Estatuto do Torcedor e deu voz de prisão ao jogador. Que logo foi cercado por vários policiais do Choque, que estavam cumprindo funções erradas em local indevido já que esta divisão policial existe para reprimir distúrbios de massa e não para deter um único cidadão presumivelmente infrator. A partir daí o gramado virou uma praça de guerra, com policiais agredindo atletas botafoguenses que tentavam tirar André Luís da confusão. E para isso utilizaram cassetetes, spray de pimenta e ameaças verbais, felizmente registradas pelas câmeras. Ações que depois foram defendidas pelo chefe do policiamento presente no estádio.
Fato que por si só já mostra que o abuso de poder e de autoridade é tido como prática comum pela polícia local, o mesmo demonstrado na prisão do técnico Lori Sandri,então no América-RN,em partida contra o Sport, no ano passado. Atos que, se vivêssemos em um país sério, resultariam no sumário afastamento ou mesmo expulsão da corporação de todos os policiais agressores, a começar por Lúcia Helena. Mais que isso, deveriam provocar mudanças na cúpula da Polícia Militar de Pernambuco e mesmo na exoneração do Secretário de Segurança. Mas como aqui é o Brasil, é bem capaz que os policias sejam promovidos e recebam medalhas pelos serviços prestados.
Que continuaram em novas ações absurdas. A primeira, que segundo os presidentes do Náutico, Maurício Cardoso, e da federação local, Carlos Alberto de Oliveira, foram tomadas pela entidade que rege o futebol em Pernambuco, a de manter trancada a porta do vestiário botafoguense, impedindo o acesso de André Luís ao local devido. Fato que por si só já justificaria - ao contrário do que muita gente séria da imprensa tem dito - algum tipo de punição ao clube mandante (que é o responsável direto pelo jogo), que a partir desse momento deixou de oferecer a segurança necessária para sediar a partida. Fato agravado pela presença dentro de campo, com direito inclusive a ofender André Luiz, do torcedor supostamente atingido pela garrafa plástica chutada pelo zagueiro. Invasão que teria sido autorizada pela polícia, mas que contraria novamente o estatuto do Torcedor.
Para piorar, a despreparada força policial decidiu retirar o atleta pelo meio da torcida do Náutico, expondo André Luiz e o presidente do Botafogo, Bebeto de Freitas (que neste momento tentava acompanhar seu atleta) à ira dos torcedores que, exaltados pela confusão, responderam cuspindo e arremessando objetos nos dois cidadãos então custodiados pelos policiais.
Fatos que comprovam a falta de segurança proporcionada exatamente por quem deveria zelar por ela e que justificariam a proibição imediata da realização de toda e qualquer competição esportiva oficial no Estado de Pernambuco até que sejam revistos os métodos de treinamento e ação do policiamento local. Somente medida drástica como esta é capaz de modificar o estado de coisas que se desenha nos estádios pernambucanos. Decisão corajosa, que poderia até ser classificada de bairrista (embora pudesse ser repetida em outras localidades), que certamente não será tomada pelo medo que as autoridades políticas e futebolísticas têm de perder seus preciosos votos.
Nota 10
Para o belo gol de Felipe, o segundo da vitória de 3 a 0 do Náutico, que quase passou despercebido diante de tanta confusão.
Nota 0
Para a PM de Pernambuco, André Luís e diretorias do Náutico e da Federação Pernambucana pela verdadeira Batalha dos Aflitos.