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Doutor Octopus, o novo vilão: sequência supera o original - Divulgação
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Ser ou não ser

02 jul 2004 às 11:00
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O artista Art Spielgman, responsável pela clássica hq Maus, deu uma resposta formidável quando perguntado se tinha interesse em trabalhar com super-heróis: "A América já criou um grupo de pessoas que vestem fantasias e julgam fazer justiça com as próprias mãos – a Ku-Klux-Klan".

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A afirmação é espinhosa, mas faz certo sentido. O conceito de um sujeito que emprega habilidades fantásticas para policiar a sociedade pode ser visto como ilustração do autoritarismo de certos regimes – sintomático, pois então, que tenha se desenvolvido em um império moderno como os Estados Unidos. Por outro lado, são figuras essencialmente visuais, dadas suas origens nas histórias em quadrinhos, primo não tão distante do cinema.

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Nos próprios quadrinhos, há tempos deixou-se a inocência de lado, explorando aspectos menos fantásticos e mais políticos e sociais da existência dos heróis – vide Alan Moore e seu Watchmen ("quem vigia os vigilantes?", perguntava), ou O Cavaleiro das Trevas, em que Frank Miller mostrava um Batman no melhor estilo Desejo de Matar. Da mesma maneira, as adaptações para as telas que vingaram foram as que valorizaram o que havia de real ou simbólico nos super-heróis. O Batman (1989) de Tim Burton refletia a paranóia urbana distribuindo sopapos noite afora. Em Superman (1978), o herói policia o planeta, assombrado pelo mandamento do pai ("você não deve interferir").


Recentemente, os filmes de super-heróis parecem mais preocupados em humanizar seus personagens, deixando de lado as obsessões com poderes, apostando em temas de fácil identificação. Os X-Men (2000, com seqüência em 2003) de Bryan Singer são claramente uma parábola sobre a segregação racial.

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Pois o primeiro filme do Homem-Aranha acertava em cheio ao valorizar a humanização do super-herói. O pobre Peter Parker (Tobey Maguire) é retraído, socialmente descartado, não tem grana e nem sorte com as garotas. Quando, por conta de uma artimanha improvável do destino, ganha uma série de poderes, cria uma identidade em que pode extravasar todas as suas frustrações – combater o crime será decorrência de um dos mantras mais populares das hqs: "com grandes poderes, vêm grandes responsabilidades", o ensinamento final do finado tio Ben.


Em Homem-Aranha 2, Peter começa a desconfiar que ser o Homem-Aranha talvez não seja tão vantajoso assim. Ao gastar grande parte do tempo como combatente do crime, vai mal na escola, afasta os amigos, perde o emprego. Até mesmo a caridosa tia May (Rosemary Harris) considera a possibilidade do sobrinho ser um relapso. Não bastasse, tem de enfrentar o maluco da vez, o Dr. Octopus – que é interpretado admiravelmente por Alfred Molina.


Aqui um dos trunfos do filme: atores e diretor estão completamente à vontade, dando uma credibilidade notável ao filme. Homem-Aranha 2 supera, e muito, o exemplar original: um vilão mais interessante, efeitos melhores, mais humor e um excelente gancho para a terceira parte. E o foco em Peter Parker ganha uma ampla dimensão dramática. Nunca o herói de um filme apanhou tanto. Parker sofre uma série de golpes, físicos e emocionais, ao longo da história, até um final relativamente redentor.


Estamos diante de um grande filme, em vários sentidos. Se os típicos blockbusters do verão hollywoodiano fossem feitos com metade da paixão que se vê em Homem-Aranha 2, teríamos uma seleção mais digna de "filmes de férias". Eis a melhor sessão-aventura da temporada.


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O cinema perde Marlon Brando. Ator polêmico, de fortes convicções políticas (não foi receber um Oscar por não concordar com o tratamento dispensado por Hollywood aos indígenas) e relacionamento tempestuoso com a imprensa, Brando será lembrado por sua participação em clássicos inquestionáveis, como Uma Rua Chamada Pecado, Sindicato de Ladrões e O Poderoso Chefão. O talento sobrevive.


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