Música pop

Granada renovada

05 mar 2004 às 11:00

Vão ser poucas as resenhas sobre o quarto álbum do Grenade que deixarão de destacar a forma como o disco abre: "Turn The Page", uma balada voz e violão de menos de um minuto, onde o vocalista Rodrigo Guedes anuncia: "hora de virar a página". Trata-se de uma canção no estilo como o Grenade era conhecido antes, prontamente soterrada na seqüência pelo indie rock "Old Wish". O raciocínio no salto entre as duas faixas não teme a obviedade: Grenade era assim, agora é assado. Antes era um projeto caseiro, hoje é uma banda.

Na primeira metade da década passada, Guedes montou no interior paulista o Killing Chainsaw, que chegou a assinar contrato com uma gravadora internacional, a Roadrunner. O som se inspirava nitidamente em Helmet, Jesus & Mary Chain e My Bloody Valentine e atingiu certa repercussão no meio underground, embora o grupo não tenha conseguido prosseguir – segundo Guedes, o Chainsaw ficou amarrado ao contrato com a Roadrunner e preferiu acabar.


Em 1998, já morando em Londrina, o vocalista articulou sem pressa um novo projeto musical. Registrando novas canções num gravador caseiro de quatro canais, Guedes lançou três álbuns sob o nome Grenade. As influências já eram distintas das do Chainsaw: Beatles, Neutral Milk Hotel, o lo-fi de Sebadoh e Guided By Voices. O charme residia na eletrônica rudimentar, nas introduções com vozes retiradas de filmes antigos, na psicodelia possível com poucos recursos.


Desde então, Guedes recuperou o entusiasmo pelo palco e lá por 2000 decidiu que transformaria o Grenade numa banda "de verdade". Nos shows, as composições dos primeiros discos passaram a ganhar interpretações mais roqueiras, enquanto as novas músicas deixavam claro que a próxima tacada privilegiaria o indie rock mais ortodoxo: baixo, guitarra, bateria. Essa longa explanação serve para que o leitor entenda o quanto o Grenade mudou.


"Grenade" (lançamento do selo paulistano Slag, com distribuição nacional pela Trama), o tal quarto disco, também procura escancarar esse novo rumo no próprio título – você sabe, álbuns que levam apenas o nome da banda geralmente são de estréia – e na capa, onde Guedes aparece ao lado dos outros integrantes, que agora colaboram nas composições e arranjos. Gravado sem pressa em Londrina, o álbum acabou ganhando de última hora um crédito de renome: a masterização foi feita nos Estados Unidos por Steve Fallone, o mesmo que deu os últimos toques em "Room On Fire", dos Strokes.


As influências de Neil Young, Kinks e Dinosaur Jr são nítidas em faixas que parecem estandartes rock’n roll, como "Rainmaker", "Secret Trick", "Walk On Glass" e "Tonight", bastante parecidas entre si. As melhores são "Erase Your Head", de refrão ótimo sucedido por uma linha de baixo deliciosa, a baladinha "For Her" e "Moving On", que parece escrita pelo Teenage Fanclub. Também conta "Going Home", cuja dinâmica na bateria valoriza a melodia do refrão.


A sangria do corte com o passado é estancada em "Top Of My Head", balada ao violão, e a vinheta "War Me", com diálogos retirados do cinema, ambas à moda do Grenade de outrora. Quem sentir falta dessa banda, entretanto, vai precisar procurar a coletânea "Splinters (2000-2002)" (Bay King Music), também recém-lançada, que compila os últimos suspiros da feição caseira do grupo.


"Grenade" é um disco de qualidades, com raros momentos fracos, mas apresenta dois problemas consideráveis. O primeiro é musical: na sua era lo-fi, o grupo parecia ter um diferencial em relação ao resto do rock independente brasileiro. Ainda que no formato banda o Grenade tenha possibilidade maior de agradar em shows, em muitos momentos soa parecido com outras bandas do indie nacional.


O segundo problema é de conjectura. Com moral garantida entre crítica e fãs de rock antenados, o Grenade parece muito próximo de atingir o sucesso máximo a que se é possível chegar fazendo rock desse jeito no Brasil – inspiração no underground ianque, com letras em inglês. Muito provavelmente Guedes não ambicione mais do que isso.


O drama é que, para sobreviver e se tornar realmente relevante dentro da música brasileira, o rock independente nacional, cuja boa forma é ressaltada de forma insistente pela imprensa especializada, necessita urgentemente de uma banda (ou de uma leva de bandas) que finalmente faça a transposição entre underground e grande público, para se tornar popular de fato. O som do Grenade, ainda que inspirado, não parece apropriado para fazer essa ponte. A pergunta angustia porque ainda não obteve resposta: quem vai salvar o dia?


LANÇAMENTOS


Suede – "Singles" (Sony)


O Suede foi mesmo os Smiths dos anos 90. As semelhanças são muitas: ambas eram lideradas por vocalista afetado com pinta de gay que não parava de reclamar da vida, tinham guitarrista habilidoso e de estilo enxuto (no Suede, primeiro Bernard Butler, depois Richard Oakes) e eram adoradas pelos indies. A diferença é que o Suede é bem pior. Nesta coletânea de 21 faixas, que aparentemente passa a régua na carreira do grupo (o diz-que-me-diz sobre o fim da banda não pára), fica evidente que, mesmo quando acertava – como em "Animal Nitrate" e "The Wild Ones" -, o Suede não era mais do que uma bandinha britpop. Ao lado do Oasis, a banda de rock mais superestimada da década passada.
Para quem gosta de: "Strangeways, Here We Come", dos Smiths, discos solo de Morrissey, Bowie na descendente.


Mark Lanegan Band – "Here Comes That Weird Chill" (Beggar’s Banquet – Importado)

Desde o fim dos Screaming Trees, o vocalista Mark Lanegan vem mantendo uma carreira solo estável, com discos de qualidade constante lançados sem alarde. Desta vez incorporando uma banda de apoio propriamente dita, ele ameaça dar um novo salto de popularidade. O EP "Here Comes That Weird Chill", lançado em dezembro último, compila oito faixas e é anunciado como aperitivo para um novo álbum, "Bubblegum", que sai nos próximos meses e vem sendo prometido como o melhor de Lanegan em anos. Embora vez ou outra adote um viés mais roqueiro ("Methamphetamine Blues"), o cantor é mesmo um representante da linhagem de trovadores bêbados e desesperados, como comprovam "On The Steps Of The Cathedral", "Sleep With Me" e a dilacerante "Lexington Slow Down". Uma abordagem tão soturna que obscura os nomes de Josh Homme (do Queens Of The Stone Age) e Greg Dulli (ex-Afghan Whigs) nos créditos.
Para quem gosta de: Leonard Cohen, Nick Cave, PJ Harvey.


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