28/10/20
Ataque homofóbico

Ator é agredido e perde cena em curta-metragem em Londrina

Um ator foi impedido de gravar cenas para um curta-metragem depois de ser agredido em uma situação de intolerância sexual, no domingo (26), nos arredores do Terminal Urbano de Londrina. O ator Otávio Pelisson foi xingado e levou socos de dois homens que não gostaram de vê-lo maquiado na ruas, a caminho da gravação de um filme no bar Valentino. Ele foi salvo por uma senhora que bateu nos agressores com um guarda-chuva.

Otávio participaria do curta-metragem "Passo Cruzado", escrito e dirigido por Vivian Campos e produzido em parceria com a pós-graduação em Cinema e Documentário da Faculdade Pitágoras. O filme teve cenas gravadas no sábado (25) e domingo e tem gravações também nesta terça (28). Em sua cena, Otávio atuaria como drag queen, mas, no momento das agressões, não utilizava o figurino. Estava maquiado e de unhas postiças. "Eu sempre ando assim, mas, como iria interpretar uma drag queen, a maquiagem estava carregada", conta.


Quando chegava ao terminal, dois homens começaram a ofender Otávio. "Eles fizeram piadinhas, que aquilo 'não era coisa de homem', que era 'pra eu virar macho. Em seguida, me empurraram pelas costas e um deles me agarrou pelo braço, enquanto outro me deu socos na barriga, na costela e no estômago", recorda. No momento, uma senhora socorreu o ator batendo com um guarda-chuva nos agressores, que o deixaram e foram embora como se nada houvesse acontecido. "Foi tudo muito rápido", diz Otávio, que ligou para os pais e foi para casa, sem gravar a cena e sem registrar boletim de ocorrência.

Vivian Campos disse que, por conta deste incidente, a cena de Otávio teve de ser cortada às pressas. Pelo roteiro, uma filha levaria a mãe, com quem vive em conflito, para uma festa com pessoas jovens. "A personagem de Otávio chegaria no bar montada [como drag queen] e provocaria um estranhamento e um encantamento da senhora. Usaríamos a figura dele para fazer essa cena de contraste."

A diretora diz que ficou chocada ao saber do ocorrido com o ator e que apenas alguns elementos, como unhas postiças e maquiagem, foram suficientes para desencadear o preconceito. "A gente escuta [casos de homofobia], mas, quando acontece com alguém que está próximo, é revoltante. É impensável que chegamos em 2017 e esse tipo de intolerância ainda aconteça", disse Vivian.

Otávio não registrou boletim de ocorrência porque teme algum tipo de retaliação dos agressores. O fato de a homofobia ainda não ser crime também aumenta o receio. "O caso seria registrado como uma simples agressão, mas não é isso. Mexeram comigo, disseram para 'virar macho'", recorda a vítima.

Vinícius Bueno, ativista e membro do Fórum LGBT de Londrina e Região, afirma que já sofreu homofobia por parte de um funcionário do terminal central. "Mas embora tenha me ameaçado, não chegou na agressão física. Sou usuário do transporte coletivo e o terminal é uma terra sem lei, ou pior, existe um poder paralelo naquele lugar. Os seguranças são despreparados."

De acordo com Vinícius, quando algum caso como este acontecer, o primeiro passo é procurar um advogado especializado e sensível a causa. O segundo passo é ir à delegacia registrar um boletim de ocorrência. "Após registrar o boletim de ocorrência, encaminhe para o Grupo de Trabalho LGBT do Ministério Público do Paraná (GT LGBT). O caso terá acompanhamento de outros advogados, promotoria, ativistas, OAB, Defensoria Pública, EAJ/UEL e outros defensores dos direitos humanos que atuam na cidade de Londrina e região."

Além disso, o ativista aconselha usar as redes sociais e a imprensa para denunciar o caso. "Paz sem voz é medo! Precisamos dar visibilidade para evitar que outros casos aconteçam. Nosso orgulho não tem prazo de validade." Para Vinícius, os funcionários das empresas do transporte coletivo, da CMTU e os seguranças não estão capacitados para lidar com as diferenças, seja idosos, cadeirantes ou LGBTs.

"É comum ouvir funcionários emitindo opiniões que fazem juízo de valor em relação a essas pessoas que ferem diretamente os direitos humanos, eles conversam entre eles, como se estivessem na mesa de um bar ou outro ambiente de foro íntimo, e o fazem uniformizados e no pleno exercício das suas atividades profissionais. Por exemplo: 'esses idosos não pagam passagem, só enchem o saco' e também 'que vergonha para a família, dois homens se beijando'. Coisas desse tipo! Isso é um absurdo."

"Quando existem ocorrências no âmbito do terminal central, há uma imposição da parte dos seguranças terceirizados para que as autoridades de segurança não sejam acionadas. Já presenciei cenas de violência física e verbal e já sofri discriminação quando uma roda de funcionários da empresa do transporte coletivo falava de gays. E a opinião de um deles era a seguinte: 'deveriam jogar todos num rio para que morressem afogados'. Eles falavam essas e outras barbaridades conversando com colegas de trabalho em frente ao guichê de informação do terminal central. Falta capacitação e profissionalismo, não é admissível a qualquer funcionário de qualquer empresa a exposição de opiniões vexatórias e discriminatórias, eles não estão acima da lei."

Para o ativista, não há políticas para o diferente. "Se existe um elevador para cadeirante, na maioria das vezes é operado por alguém que não tem empatia e sensibilidade para a diferença. Tratam o diferente como se eles tivessem fazendo 'um favor'. Eles não respeitam as diferenças, apenas toleram. É muito difícil pra nós. Quase não temos pra onde recorrer."
Fernanda Circhia e Luís Fernando Wiltemburg - Redação Bonde
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