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Questão de fé.

21 abr 2010 às 10:34
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QUESTÃO DE FÉ

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Quando eu tinha oito anos, minha mãe perguntou-me o que eu queria ser quando crescesse. Eu não lhe respondi que queria ser professor; eu lhe disse: - "Eu vou ser professor". Numa certeza convicta, absoluta. Ela me contava esse fato constantemente e acreditava nisso pientissimamente. Para todos dizia: "Ele vai ser professor, pois tem fé nisso". Minha mãe tinha dessas coisas de ter fé inabalável em certas conjunturas. Aliás, ter fé era primordial a ela: vivia dizendo-nos que "sem fé ninguém sai do lugar; tenha fé que conseguirá o que quer". Coincidentemente ou não, sou professor há trinta anos.

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Com essa fé, ela e meu pai me matricularam no seminário. Mudei-me para lá com dez anos. Lembro-me da noite em que me levaram para lá. Deixaram-me com os padres e foram-se embora. Lembro-me de ficar olhando pela janela que ficava ao lado de minha cama e de ver o fusca branco de meu pai estacionado no posto de gasolina. Foi naquele momento que meu pai comprou o bilhete da loteria federal que lhe rendeu uma pequena fortuna: ganhou o primeiro prêmio. O final do bilhete era o meu número no seminário: 161; leão, nos bichos da loteria. Foi muita coincidência, minutos depois de ter-me deixado no seminário, ter encontrado um bilhete de loteria com o mesmo número que passaria a ser minha identificação durante o tempo em que lá moraria. Mais coincidência ainda ser o bilhete premiado naquela semana.


ENSINAR OS MAIS FRACOS A SEREM MAIS FORTES.

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Não durou muito a minha estada naquele lugar. Quis sair sem delongas. Era meu aniversário; meus pais foram visitar-me, e minha mãe perguntou-me: "- Que quer de aniversário?" Ao que respondi: "- Quero ir embora!" No mesmo dia, já estava em casa, com a fé um pouco abalada. A minha relação com as pessoas de lá tirou-me um pouco dela. Percebi que havia mais de pessoas comuns naqueles padres do que de sacerdotes (Não generalizo, trato especificamente daqueles seres humanos, não dos padres em geral). Observei que os garotos que lá moravam eram tão maldosos quanto os que eu havia conhecido antes nas escolas em que estudei, ou mais. Foi a primeira vez que sofri bullying de verdade; os anteriores eram brincadeira de criança; ali já havia maldade. Os adultos que nos comandavam também não eram um exemplo de austeridade; muitos incentivavam os meninos mais fortes a "ensinarem" os mais fracos a serem mais fortes. E eu era "mais fraco", magríssimo e pequenino. Tive muitas lições de fortalecimento...


Uma das tarefas que tive de realizar com outros dois seminaristas para "fortalecer-nos" foi transferir de lugar um monte de mais ou menos dois metros de altura de dezenas de pedras de aproximadamente trinta, quarenta centímetros de diâmetro cada uma; ao levarmos a última pedra, a notícia: leve-as todas de volta! E lá fomos nós carregando uma a uma, tudo de novo. Fortaleci-me? Não, mas me fortaleceu a convicção de que não mais queria ficar lá.


FÉ EM DEUS; NÃO NAS PESSOAS QUE O REPRESENTAM.


Minha mãe se revoltou com tudo o que lhe contei, mas sua fé permaneceu inabalável, afinal, como ela me dizia muito: "a fé é em Deus, não nas pessoas que O representam". O relacionamento dela e de meu pai com os padres que frequentavam minha casa, porém, se deteriorou. Pessoas são pessoas. Pessoas são falíveis. A fé verdadeira não se abala com as atitudes humanas. O segredo é aprender com os erros alheios para não os cometer também. Se é perceptível, por exemplo, que um cidadão megalomaníaco, ou seja, aquele que tem ambições desmedidas, não é benquisto pelos demais, o ideal é comedir-se quanto às ambições.


Aprendi naquela época que o ser humano não é inteiramente confiável. Percebi que há diferença entre a essência e a aparência e passei a desconfiar mais das pessoas, ou a confiar menos nelas, o que não tem o mesmo significado: confiar menos não necessariamente seja desconfiar. Não que me tenha afastado das pessoas; do contrário, aproximei-me mais dos meus familiares e dos meus amigos.

Continuei tendo fé, não com a mesma intensidade da de minha mãe, mas fio que, se mantiver, inabaladamente, um comportamento compatível com os princípios da humanidade e se tratar as demais pessoas como quero que me tratem, serei um cidadão justo e íntegro. O grande problema são os demais: quantos agem assim? Quantos se propõem a ser bons cidadãos? Há como confiar no ser humano de hoje? São perguntas retóricas; sem esperança de respostas...


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