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Mudança de Hábito

13 jun 2005 às 11:00
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"Tudo passa, tudo sempre passará..." como já dizia esta frase, que eu não lembro se é de um poeta ou de uma música brega, o Mundo está em constante evolução. Seja para o bem ou para mal, o fato é que as coisas mudam, o tempo passa, os hábitos se transformam, enfim..., como num grande bufê por quilo, a fila anda.
Na história da alimentação o que não falta são bons exemplos dessa adequação que o transcorrer do tempo nos impõe. É verdade que as descobertas que o homem fez durante sua evolução influenciaram no processo, mas tem muita coisa nessa história que não passa de puro lobby.
Comecemos pelo fim: o arroto. No fim de uma boa e generosa refeição o arroto pode ser um complemento prazeroso. Incentivado pela própria mãe na infância este hábito é, mais tarde, recriminado, inclusive e principalmente, pela progenitora. Além da confusão traumática que causa nas crianças, essa "repressão gasosa" não tem nenhuma justificativa plausível. Há tempos atrás, nas melhores mesas da sociedade, um belo e sonoro arroto era visto, ou melhor, ouvido com bom grado, pois significava a satisfação plena do comensal. Mas depois, com o advento da coca-cola, o arroto banalizou-se e, inexplicavelmente, acabou caindo na marginalidade da etiqueta social, uma pena!
Já outros hábitos ostentam uma trajetória bem mais louvável, quase épica. A descoberta do fogo por exemplo, mudou consideravelmente o le grotte menu colocando a carne, definitivamente, na base da pirâmide alimentar do homo sappiens. Aliás, segundo pesquisas recentes (vegetarianos, engulam essa!) foi graças ao alto valor protéico da sua dieta que o homem potencializou a capacidade dos seus neurônios, atingindo uma atividade cerebral muito superior a dos seus parentes símios, e à de todos os outros animais.
Mas nem todo mundo que come carne é assim tão esperto, como algumas tribos esquimó, que tem o "regurgitante" hábito de comer até vomitar, para poder continuar comendo. É que, embora morem na própria geladeira, esses povos são nômades e portanto não costumam armazenar os alimentos. Dessa forma quando abatem uma baleia, por exemplo, comem-na toda de uma vez. Bom, todo mundo que já passou mais de 3 horas numa churrascaria rodízio, sabe que, no máximo, dois dias depois disso você está novamente com fome. Talvez isto explique porque os esquimós não estão na disputa por uma vaga permanente no conselho de segurança da ONU.
Já os indianos podem até conseguir uma vaga no tal conselho, já que são considerados inteligentes e pacíficos. Contudo quando se trata de modos à mesa, eles são mesmo é meio esquisitos. Até comem carne, embora nunca de vaca que é considerado animal sagrado por lá, mas de um jeito um pouco diferente.
O hábito indiano é de comer com as mãos, por exemplo, num banquete de casamento a comida é servida em grandes travessas colocadas no chão, então entram somente os homens, sentam-se em grupos ao redor da travessa e servem-se, sempre com as mãos é claro. Quando os homens estiverem fartos, todos saem e entram as mulheres que repetem o ritual. Ah sim, e tudo isso sempre com a mão direita, comer com a mão esquerda na Índia é uma falta grave, já que ela é utilizada para funções menos nobres (o consumo per capita de papel higiênico da Índia é um dos mais baixos do Mundo).
É, eu sei, certos hábitos podem ser bem escatológicos, como o dos vietnamitas de comer aranhas ou o de algumas tribos indígenas do norte brasileiro, que consideram cérebro de macaco uma verdadeira iguaria. Já outros podem não ser propriamente refinados, mas fazem bem para saúde.
Pelo menos é isso que alega a maioria dos médicos e nutricionistas. Reparou que ultimamente qualquer problema de saúde está intrinsecamente relacionado à alimentação?
– Ah doutor, estou com uma unha encravada.
– Dona Maria, quantas vezes eu já disse pra senhora não comer mais carambolas.
Pois é, vivemos sob a ditadura dos alimentos funcionais, parece que comida não pode mais ser só comida, tem que ter, pelo menos, mais umas duas funções. Isso sem falar no terrorismo da alimentação saudável, um grave problema que atinge a todos, mas do qual padecem, sobretudo, as crianças.
Não existem pais que não queiram mudar os hábitos alimentares dos filhos, tanto que isso se tornou um hábito. Começaram tímidos, com uma porção de cenoura ou brócolis antes da sobremesa, agora apelam para coisas pesadas como linhaça e gérmen de trigo. Nem a sobremesa, antigo oásis seguro dos pequeninos, consegue escapar. Os doces ganharam a indesejável companhia do aspartame, iogurte natural e sua turma, isto quando não são, simplesmente, substituídos por uma fruta. Ora, por favor, qualquer um, com mais de 3 anos e menos de 10, sabe que fruta não é sobremesa.
Diante disso só resta, sempre que possível, lembrar os entusiastas da clorofila, que o antigo hábito do homem de comer, avidamente, folhas e mais folhas provoca dolorosas conseqüências até os dias de hoje. Já que vários sofrem de problemas no apêndice, órgão que servia exclusivamente para digestão de celulose (base da dieta humana, num determinado período da sua evolução), e que hoje serve? Para doer, exclusivamente.
Pois é, hábitos são assim, vêm, vão, perpetuam-se. Às vezes impostos pelas adversidades, pela natureza, pelas condições econômicas ou pela comunidade médica, o fato é que certos hábitos alimentares dizem muito do que somos, e como nos relacionamos com o ambiente em que vivemos. "Digas o que comes, e te direis quem és", a menos que você esteja de regime, neste caso é melhor esquecer a gastronomia e procurar respostas na psicanálise.

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- 2001, Uma Odisséia no Espaço (A Space Odissey, 1968) – Filme emblemático do mítico diretor Stanley Kubrick. Embora não tenha nenhuma referência clara à "comelança" neste filme, vale, nem que seja só pela consagrada seqüência da descoberta do fogo, uma das mais famosas da história do cinema. Além disso, é um clássico.

- Os Cadernos de Cozinha de Leonardo da Vinci, Leonardo da Vinci (Editora Record) – Além de inventor genial e responsável pelo maior fenômeno editorial do últimos tempos, Da Vinci também foi um apaixonado pela culinária. Durante um tempo foi banqueteiro e coordenou a cozinha de Ludovico Sforza, um nobre da cidade de Milão, período do qual extraiu experiências interessantes, relatadas neste livro, supostamente escrito por ele. Parece que a origem dos escritos não foi totalmente comprovada, mesmo assim as histórias, às vezes cômicas dos hábitos da época, valem um voto de confiança.

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