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Eulálio é o narrador do romance. - Reprodução
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O Vendedor de Passados - José Eduardo Agualusa

14 set 2004 às 11:00
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O romance conta a vida de um negro albino - Félix Ventura - que tem por profissão criar passados gloriosos para quem o contrata. Tudo isso apresentado ao leitor pelas palavras de uma osga.

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Osga? Isso, osga é um tipo de lagartixa. Que é batizada de Eulálio por Félix, o homem que vende os passados.

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A estrutura do romance é formada por capítulos curtos, coisa que gosto bastante. Caso o livro seja uma porcaria, pelo menos você tem coragem de ir até o final e acrescenta um na sua lista de livros lidos. Mas não é o caso de "O Vendedor de Passados".


Narrado por um observador - Eulálio, a história mostra um homem que contrata Félix para que lhe crie um passado angolano. Passado que surpreendentemente dá indícios de ter existido de facto.

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Entre uma venda de passado e suas implicações, nos são apresentados os problemas de uma osga (fugir de lacraus, e refrescar-se do calor) e seus sonhos. E aqui poderíamos ter um pequeno problema:


Se tivéssemos um narrador com uma compreensão animal do mundo, alguns problemas narrativos seriam apresentados. Mas se tivéssemos um narrador animal, que age como um ser humano. Por que não usar um ser humano? Agualusa consegue uma saída interessante para dar a um narrador animal uma visão humana do mundo. Não muito original, mas resolve muito bem o problema.


Chama a atenção a proximidade entre o português angolano e o brasileiro. Nenhum estranhamento de sintaxe ou vocabular. Exceção feita a algumas palavras como "aCto" e "faCto". Mas nada que realmente atrapalhe ou impossibilite a leitura.


No livro também surge um tema caro à literatura universal: a meta-literatura. Por exemplo, contar a história de um escritor. Meta-literatura um tanto alterada em "O Vendedor de Passados", é verdade, porém presente. O ofício de criar histórias e personagens de Félix Ventura para seus clientes é em muito similar ao de um escritor.


O tema recorrente de Agualusa está presente também nesse romance: a história de Angola, sua herança de Portugal e a relações existentes entre todos os países ligados por esse idioma comum, a língua portuguesa.


O autor, nascido em 1960, na cidade de Huambo, Angola, formou-se em Portugal e já morou no Brasil. Várias de suas fontes de citações, inter-textos e afins são de autores e compositores brasileiros, portugueses e angolanos . Sua compreensão e literatura conseguem passear de maneira extremamente eficaz pelos mais diversos elementos formadores dessas culturas.


Infelizmente, o final deixa um pouco a desejar. Tenho a impressão de Agualusa ter se apropriado da cultura mexicana de novelas para desenvolvê-lo (Claro que não vou contar o desfecho).


Outro ponto a se ressaltar é a possibilidade da leitura de um texto em língua original e não brasileiro. E ele ainda estar em português. Sempre se perde muito na tradução de uma obra. Ao poder contemplá-la no original temos acesso a todos os recursos que o escritor dispôs sem intermediários. Nossa interpretação é a primeira a partir do autor.


Temos nessa obra um panorama da cultura angolana e uma crítica a sua sociedade.


E também podemos perceber como esse panorama parece com o Brasil e quanto dessa crítica também nos cabe.


*O livro resenhado foi gentilmente emprestado pela FNAC Curitiba.

Leituras Relacionadas: Sobrevivente (Chuck Palahniuk), A História do Cerco de Lisboa (José Saramago), Dublinenses (James Joyce), Polígono das Secas (Diogo Mainardi) e Um Estranho em Goa (José Eduardo Agualusa).


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