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Julian Casablancas ofereceu hits e frieza - 4Press/Alexandre Schneider
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Entre picaretagens e boa música

28 out 2005 às 11:00
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Ah, os festivais. Eles são sempre aquela coisa: ingresso a preço extorsivo, refrigerante a quatro reais, aperto, gente passando mal, som mal regulado, bandas chatas atrasando a entrada dos melhores shows. Incrível que haja milhares de pessoas dispostas a encarar tanto desafio para se saciar com algumas horinhas de boa música.

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Na noite pop da etapa paulistana do Tim Festival, no último domingo, não foi diferente. O Mundo Livre S/A foi escolhido como atração nacional para abrir a maratona. A turma de Fred Zero Quatro talvez seja a melhor banda ao vivo do Brasil hoje: no turbilhão de cavaquinho indócil, guitarra e percussão pesadas e melodias que devem tanto ao samba quanto ao punk, o público elegeu os quase-hits "Bolo de Ameixa" e "Seu Suor É o Melhor de Você" como os melhores momentos da apresentação.

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Corta para M.I.A., cuja presença em princípio soou deslocada, mas que encontrou uma platéia entregue, disposta a aplaudir qualquer gritinho de "Sam Paooolooo...". A mistura de hip hop, ragga e funk carioca, este último sem a diversão das letras sacanas, só poderia dar em lixo puro. Foi aquela típica atração modernete de Free Jazz/Tim Festival: daqui a dois meses, ninguém vai se lembrar que essa moça existe. Alguém sabe onde anda o Rapture? E o Moloko? E o Aphex Twin?


O Arcade Fire... Ao vivo, a banda canadense realmente melhora suas superestimadas e repetitivas canções. Agora, "show transcendental", "experiência religiosa", "melhor show do mundo hoje"... Esqueça. É aquele processo: o site indie Pitchfork e o NME ficaram apaixonados pela banda, aquela conhecida estação repetidora da imprensa brasileira instalada num grande jornal de São Paulo elogiou, então todas as subestações (que vão desde jornalista paranaense até blogueiro da Bahia) se sentiram obrigadas a falar bem também.


No momento em que o Arcade Fire iniciou a (patética) versão em inglês de "Aquarela do Brasil", bateu uma saudade tremenda da época em que, para ser considerada dona do melhor show da atualidade, uma banda precisava de mais do que integrantes fingindo que estão surtando no palco, expressões de orgasmo na hora de entoar os corinhos, corridinhas e coreografias robóticas. Triste.

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Bem menos badalados, os moleques do Kings Of Leon demonstraram ousadia ao sacar seu maior hit, "Molly’s Chambers", para abrir o show. Sem muita empolgação, mas também sem demagogia, o quarteto agradou com seu rockão caipira e sujo, que vez ou outra resvalava na urgência punk, e mostrou que tem suas musiquinhas sensacionais: "Wasted Time", "King Of The Rodeo" (ainda melhor ao vivo), a baladona "Trani", escolhida para fechar a apresentação.


Com a recepção que tiveram, os Strokes poderiam simplesmente ter optado por permanecerem estáticos no palco, apenas reproduzindo o que haviam tocado em estúdio. Foi exatamente o que eles fizeram. Teve gente que caiu no manjado golpe dos agradecimentos em português e da bandeira brasileira desfraldada pelos integrantes da banda, mas o quinteto liderado por Julian Casablancas apenas ofereceu a apatia e a precisão que as platéias dos Estados Unidos e da Europa já estão acostumadas a presenciar.


Esta frieza é o grande fator de incômodo do show dos Strokes: não há nota palhetada de forma diferente em relação aos álbuns, nenhum timbre é alterado, nenhuma mudança nos espasmos dos vocais. Mas o quinteto tocou todas as canções do clássico "Is This It" e quase todas as melhores de "Room On Fire" (faltou "Under Control"), e dá para contar nos dedos as bandas no rock atual que têm um repertório tão bom quanto este.


Também foram apresentadas três inéditas: a mediana "Juicebox", a péssima "Hawaii Aloha" e a excelente "Heart In A Cage", esta, o suficiente para abrir o apetite de quem aguarda "First Impressions Of Earth" (que sai em janeiro). No bis, os hits "Hard To Explain", "The Modern Age" e "Reptilia" proporcionaram o fecho ideal para um show burocrático, sim, mas que não deixou de ser memorável. Afinal, tratava-se da banda mais importante desta geração.

Lá no distante 2001, os Strokes se valeram da internet, de riffs primários e de melodias tão econômicas quanto grudentas para puxar o cordão dos grupos que já definiram o rock dos anos 00: White Stripes, Hives, Interpol, Libertines, Franz Ferdinand, The Killers. O mau uso que foi feito disso – a reafirmação da arrogância indie, a diminuição drástica do prazo de validade dos hypes, a disputa inócua para ver quem descobre a próxima bandinha "genial", a inevitável e imensa corja de aproveitadores (leia-se The Rapture, Bloc Party, Kaiser Chiefs, The Bravery, Futureheads, Ordinary Boys e tantos outros) – não teve nada a ver com a turma de Casablancas.


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