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Mas é claro que é rock!

02 dez 2005 às 11:00

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Rodrigo Juste Duarte
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É difícil imaginar que venha a existir um ano de shows de rock no Brasil melhor do que 2005. Pela primeira vez na história, o País tem um circuito forte de festivais, capaz de trazer várias atrações de qualidade inegável. Com esse ciclo a toda velocidade, hoje dá para contar nos dedos as bandas importantes que ainda não se apresentaram por aqui: ainda faltam Radiohead, Franz Ferdinand...

Enquanto as perspectivas para os próximos anos começam a despertar apetites, os fãs ainda tentam se recuperar do que aconteceu entre a tarde do último sábado e a madrugada de domingo na Chácara do Jockey, em São Paulo. É claro que é rock? Sim, e felizmente, teve rock dos bons.

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Mas todo festival, por melhor que seja, tem suas presepadas. O concurso para revelar bandas novas apenas serviu para demonstrar a tristeza que é o rock visado pelas grandes gravadoras no Brasil atualmente: ou é som retrô com propensão ao engraçadinho, ou é pauleira misturada com hip hop, na linha Charlie Brown Jr e Rage Against The Machine. Ah, existe a terceira via também, dos grupos que imitam Los Hermanos. Não chegam nem perto do original.


O Cachorro Grande foi a primeira "grande" atração a se apresentar na Chácara do Jockey. Quem não conhecia a banda pode ter pensado que se tratava de mais uma candidata do concurso do festival. Esses rapazes precisam melhorar muito: terninhos, berros e pulinhos não funcionam se você é incapaz de forjar um som com personalidade própria e de escrever uma canção decente.


Sem recorrer a esses clichês, a Nação Zumbi, que se apresentou depois, dá de goleada no Cachorro Grande em qualquer quesito: visceralidade, técnica, composições. Orgulhosa do presente e em paz com o passado, a banda pernambucana despertou frenesi com um repertório que mesclou composições da fase Chico Science ("Manguetown", "Da Lama ao Caos") e da safra mais recente ("Meu Maracatu Pesa Uma Tonelada", "Hoje, Amanhã e Depois").


Entre as duas principais atrações nacionais, foi encaixado o Good Charlotte. Um conselho: esqueça essa banda. Porque se hoje ela já é irrelevante para quem tem mais de dez CDs na coleção, daqui a cinco anos não vai ser lembrada nem pelos adolescentes que pularam e choraram ao som dessa enganação.


Depois que o festival começou de verdade com a Nação Zumbi, o Fantômas assustou com seus cacos de trash metal, música clássica, experimentalismos em geral e pouquíssimas concessões ao pop. Óbvio, o quarteto levou ao êxtase os adeptos da patton music, que são ecléticos: gostam de todo tipo de música, desde que seja feita por Mike Patton. Mas estes fanáticos não são numerosos. A maioria da platéia preferiu fazer um lanche ou procurar o melhor lugar em frente ao palco oposto para ver os Flaming Lips.


Aliás, "ver" é um verbo tão valorizado quanto "ouvir" no show dos Lips. Todos os adereços visuais funcionaram: o telão que oferecia imagens inusitadas, a bolha dentro da qual Wayne Coyne foi carregado pelo público, os balões, os fãs vestidos de bichinhos, as fitas de papel disparadas pelo vocalista... O bom humor de Coyne, que insistia para que a platéia cantasse junto, acabou dobrando até os roqueiros mais obtusos, que se renderam de vez diante das versões de "Bohemian Rhapsody", do Queen, e "War Pigs", do Black Sabbath.


No meio desses truques, a banda se sentiu à vontade para apresentar as belezas de seu repertório: "Race For The Prize", "The Gash", "Do You Realize??", "Fight Test", "She Don’t Use Jelly", "Yoshimi Battles The Pink Robots Pt.1"... Show memorável, mas curto. Num mundo ideal, o Good Charlotte teria sido providencialmente deletado para que os Lips tocassem umas canções a mais.


Os Stooges? Já se passaram mais de 30 anos desde que o quarteto liderado por Iggy Pop mostrou sua carinha ameaçadora para o mundo, e este mundo ainda não está preparado para os Stooges. Prova disso foi a reação atrapalhada dos seguranças que tentaram impedir os fãs, incitados por Iggy, de subir ao palco durante "Real Cool Time" e "No Fun". A sensação de perigo foi constante. Iggy se atirou na platéia de forma tão desesperada que por um instante pareceu que ele não ia conseguir voltar.


A certa altura, o vocalista surtou e começou a cuspir impropérios interminavelmente, tal como uma vítima da síndrome de Tourette, e ele parecia disposto a matar alguém com as unhas. Quem pagou o preço foram os cinegrafistas da MTV, deliciosamente sacaneados (um deles foi presenteado com um safanão), e o pessoal da iluminação, que recebeu instruções sob uma saraivada de palavrões. Ao final da apresentação, o pedestal do microfone foi utilizado como chicote para açoitar o palco.


E o show teve até música: "I Wanna Be Your Dog", "TV Eye", "Down On The Street", "Dirt". Canções que ajudam a lembrar que o genial descontrole de Iggy no palco não foi a única arma que os Stooges usaram para mudar o mundo. Se não foi o melhor show de rock que o Brasil já viu, entra fácil na lista dos três melhores.


O Sonic Youth, que recebeu a duríssima tarefa de suceder os Stooges, fez uma apresentação que deve ter agradado apenas os fãs mais fiéis. A banda nova-iorquina privilegiou canções recentes, recurso que, aliado ao som baixo, espantou muita gente. Quando o grupo tocava músicas mais antigas, como "Schizophrenia", "Drunken Butterfly", "Bull In The Heather" e "Teen Age Riot", parecia que a coisa ia engrenar. Aí vinha alguma viagem de microfonia, outra música nova, e a receita desandava. No saldo, bastante inferior ao que a banda ofereceu quando esteve pela primeira vez no Brasil, há cinco anos.


O Nine Inch Nails fechou a maratona. O grupo de Trent Reznor é um dos expoentes do chamado industrial, uma das vertentes mais desinteressantes do rock. Levando-se isso em conta, a banda precisa mesmo daquele jogo de luzes gigantesco para evitar que os não iniciados morram de tédio. Claro, teve pedestal jogado no chão, guitarrista se contorcendo. Mas como a banda mais perigosa da história havia pisado o mesmo palco minutos antes, as micagens da turma de Reznor pareceram coisa de criança, birra de moleque que não ganhou o Playstation 2 no aniversário. Teve "Hurt". Mas eu, você e Trent Reznor sabemos que a versão do Johnny Cash é muito melhor.

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