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Jornalista iniciou carreira no NME e hoje é romancista respeitado - Reprodução
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Tiros pela culatra

04 nov 2005 às 11:00
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A música pop representa apenas uma parte de "Disparos do Front da Cultura Pop", coletânea de artigos do jornalista inglês Tony Parsons que acaba de ser lançada no Brasil pela editora Barracuda. Será que sua presença pode ser justificada nesta coluna, então? Sim, porque os textos sobre música pop representam o que há de melhor no livro. Nos artigos sobre outras formas de arte, comportamento e viagens, Parsons, que é um romancista até respeitado, demonstra que não deveria se distanciar muito do mundo das guitarras.

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Cinqüentão, ele iniciou a carreira no NME na segunda metade dos anos 70, aquela estranha época em que a primeira leva do punk inglês fazia muita gente pensar que nada do rock que havia sido produzido anteriormente prestava. Dessa forma, os primeiros artigos de "Disparos..." traduzem toda a efervescência da época em que Clash e Sex Pistols eram reis, mas também transitam em interessantes vielas paralelas: as considerações ácidas sobre a suposta honestidade do Generation X, os "punks limpinhos" (a banda que projetou Billy Idol), são hilariantes. Assim como a surpresa manifestada num texto que descreve a presença de Robert Plant, símbolo máximo de tudo que o punk "lutava" contra, num show do The Damned.

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Dali em diante, Parsons seguiu em direção a outras vertentes roqueiras e arrancou entrevistas reveladoras de gente talentosa como David Bowie e Morrissey. E até de gente sem talento: o bate-papo com George Michael demonstra que o cantor tem uma cabeça melhor do que sua música. E o artigo sobre Brett Anderson é melhor do que qualquer canção do Suede (cá pra nós, pra conseguir isso, também não precisava muita coisa...). O texto sobre a morte de Kurt Cobain trata o suicídio do cantor como merece ser tratado, apenas mais uma triste história de submissão às drogas: "Existe mais um membro no clube dos idiotas. Que desperdício".


Os outros artigos de "Disparos..." sofrem de um complexo de obviedade tremendo: quem quer ler mais opiniões vazias e preconceituosas sobre o desempenho masculino no ato sexual? Sobre groupies? Sobre a grosseria da classe operária britânica? Sobre mendigos nas ruas de Londres? Tudo isso temperado por tiradas que se pretendem espirituosas, mas despertam no máximo sorrisos amarelos.


Existe algo mais lugar-comum do que utilizar várias vezes os adjetivos "grande" e "decadente" ou sinônimos deles para escrever sobre Moscou? O leitor quer mais exemplos de clichês? "Ainda dava para sentir que estávamos na presença de uma majestade" – frase num artigo sobre Muhammad Ali. "Alex estupra, mata e esmaga testículos. E queremos ser seus amigos" – reflexão sobre "Laranja Mecânica", de Stanley Kubrick. Quando escapa do espectro da música pop, Parsons tenta encobrir fraquezas com adornos literários. É uma estratégia tão corriqueira quanto frágil. E o ecletismo da obra, que poderia ser sua força, é seu maior defeito. É tanto disparo que a maioria acaba saindo pela culatra.

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LANÇAMENTOS


Black Rebel Motorcycle Club – "Howl" (Echo - importado)

No ano passado, um jornalista lançou a teoria de que disco bom é aquele que você "pega" na primeira audição. Se não bateu de cara, esqueça. O disco em questão não presta. Teoria furada, claro – pare pra pensar e você vai ver que não gostou de primeira de muitos discos que você ama. O contrário acontece muito também: álbuns que em princípio parecem ótimos, mas que não resistem às audições seguintes. "Howl", terceiro disco do Black Rebel Motorcycle Club, é assim. A novidade aqui é a substituição da tormenta de guitarras à Jesus & Mary Chain por baladas com violões, gaita, piano e muitas remissões ao folk. A doce "Promise", que lembra Beatles, a tensa faixa-título e a levada abafada de "Sympathetic Noose" mantêm as boas primeiras impressões. O resto do repertório amarela em poucos dias.
Para quem gosta de: Wilco, Decemberists, momentos mais calmos do White Stripes.


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