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Sorrisos de arquibancada

30 out 2003 às 13:30
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Olá, amigos do esporte! Cada um tem seu próprio passo. É como uma impressão digital, não há duas iguais. Os indivíduos andam como vivem. Pelo andar você pode conhecer o homem ou a mulher. Existem os decididos, os vacilantes, os engraçados, os sérios, os retos e os tortos, entre tantos.

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O andar também revela seu estado de espírito. Note, quando você está triste, como seu andar também será triste. Se quiser comprovar, acompanhe-se atenciosamente por uma semana. Faça a auto-observação. Quando for ao mercado, ou passear na calçada ou no pátio com seu filho. Quando for pegar o ônibus para ir trabalhar e quando estiver voltando para casa. Quando for encontrar a pessoa amada ou fugir de algum chato. Observe seu andar e verá que em cada situação será diferente, embora guardando a marca individual que o distinguirá de todos os outros andares.

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Olhe para o andar da professora em torno do quadro. Observe o militar que faz ronda no calçadão. Ou o operário quando livra-se do espaço curto do andaime e ganha a rua para beber com os amigos no final da tarde. O apressado e equilibrista garçom. O tec-tec do salto alto da madame e o andar de borracha do atleta. Cada profissão anda de um jeito próprio.


Repare o passo nervoso, impaciente, de alguém que espera. Agora compare com o flanar alegre de quem encontra. Quem parte pode andar rápido, decidido ou claudicante, arrependido. Igual a quem chega.


Você pode estar perguntando por onde anda a cabeça deste colunista, para desandar a falar de passos e caminhares. Onde ele quer chegar com isso? Ora, é que esta é a semana do aniversário de 70 anos de Garrincha. Além disso, lembrei do gol do Robinho, contra o Coritiba.

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Sobre Garrincha, quem poderia dizer, olhando aqueles passos de uma perna mais curta, uma torta para cá e outra também, que ele seria um jogador de futebol? Quando entrava em campo, quem tropeçava eram os adversários. Não suportavam aquele desequilíbrio unilateral. Sopro do anjo torto de Drummond. O mundo de repente oblíquo. E caíam. Pobres Joões labirínticos. Deu vontade de escrever que Garrincha tinha passos imprevisíveis, de bêbado, mas isto poderia ser mal interpretado.


Como escreveu Armando Nogueira e li aqui neste mesmo espaço: ''Quem, mais que a relva poderia imaginar, agora/ quanto é profundo o silêncio dos teus passos?/... Ainda hoje, pulsam em meu peito as minúcias do teu drible/... Ele dispensa espaço e existe.'' Ave, mestre Armando.


Garrincha era o clown no picadeiro. E Robinho, com seu passo moleque, é capitão de areia. Robinho é criança brincando de toureiro. A bola é a capa vermelha com que engana os animais que o seguem. Ele chama a fera e ela vem cheia de certeza estúpida, só pensando em destruir: agora agora agora AGORA... e não há mais nada ali, a capa passou, a bola passou, Robinho passou.

Garrincha e Robinho. Ilusionistas dos gramados, criando mágicas que nunca percebemos como. Luz de vitral gravando parede. Teatro de sombras em mil olhos de piá. Bolas de sabão na memória. Sorrisos de arquibancada. Futebol do Brasil.


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